31 de out de 2016

Sem Eduardo Campos, Geraldo Julio bate de novo PT no Recife e consolida-se como maior liderança socialista no Estado


Apontado em 2012 como um candidato tirado do bolso pelo ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos, nada além de outro poste em mais uma disputa eleitoral na capital pernambucana, o prefeito do Recife, Geraldo Julio (PSB), reelegeu-se neste domingo com larga vantagem. O socialista ficou com 61,30% dos votos e sai da disputa eleitoral em 2016 com mais musculatura do que nunca, transformando-se na maior liderança socialista do Estado, após a morte prematura do aliado e candidato a presidente da República pelo PSB, em 2014. O adversário João Paulo (PT) teve 38,70% dos votos e, sem ele, os petistas ficam sem capitais no Nordeste.

Nas eleições para prefeito em 2012, ano em que Geraldo ganhou por pouco no primeiro turno, ele tinha a companhia de Eduardo Campos no auge da aprovação e um palanque bem mais amplo, com a presença de lideranças como Armando Monteiro Neto, atualmente senador pelo PTB e agora aliado do petista. O candidato a prefeito do PT derrotado na época foi Humberto Costa, eleito para o Senado com a ajuda do PSB e Campos em 2010, tendo João Paulo na vice.

No primeiro turno, depois de criar uma marca própria, com o slogan “G40”, tirando o “E40” da época de Eduardo, Geraldo Julio foi apresentado como o líder sem “sombra” de nenhuma outra liderança. Mas, no segundo turno, a família Campos marcou mais presença em eventos com palanque. O último comício reuniu políticos do PSB nacional, como Beto Albuquerque, candidato a vice-presidente em 2014, após a morte de Eduardo Campos, e o senador Fernando Bezerra Coelho (PT), que comentou em referência a Geraldo como “líder da tropa”: “A vitória foi construída por você; é o reconhecimento ao seu trabalho”.

Além deles, estava João Campos, filho de Eduardo e chefe de gabinete do governador Paulo Câmara, esteve mais presente no segundo turno, depois de priorizar no primeiro turno cidades do interior como Sertânia, Floresta e Surubim.

Velho e o novo

Neste ano, antes mesmo do pleito começar oficialmente no Recife, o socialista Geraldo Julio já dizia, em análises internas, que João Paulo seria o candidato mais fácil de vencer, pois o socialistas, em campanha, poderia estabelecer o debate do novo (os quatro anos de gestão do PSB) contra o velho (12 anos do PT no Recife).

Geraldo Julio por pouco não venceu no primeiro turno: teve 49,34% dos votos válidos contra 23,76% de João Paulo; 18,59% de Daniel Coelho; e 5,43% de Priscila Krause. Edilson Silva (PSOL) teve 2,1%. Carlos Augusto (PV), Simone Fontana (PSTU) e Pantaleão (PCO) não chegaram a 1%.

Além do antipetismo reinante nestas eleições marcadas pela Operação Lava Jato e pelo impeachment de Dilma Rousseff, o candidato do PSB contava com o voto útil do PSDB e DEM para liquidar a fatura no primeiro turno, mas não conseguiu. Mesmo assim, chegou ao fim da campanha do primeiro turno com 49,2% das intenções de votos válidos, de acordo com a quarta rodada de intenções de voto realizada pelo Instituto de Pesquisas Maurício de Nassau. O Ibope e o Datafolha também publicaram pesquisa, dando números menores para Geraldo Julio: 45%, dando margem à expectativa de que a definição do pleito apenas se daria no segundo turno, o que de fato ocorreu.

Nestas eleições, Geraldo Julio também contou ainda a seu favor com um maior número de candidatos proporcionais, mais de 450 em um total de 700 candidatos a vereador na capital.

Espólio tucano

No primeiro turno, em queda nas pesquisas, o candidato do PT, João Paulo, chegou a anunciar que iria buscar um acordo com o Democratas e o PSDB. Aos jornais, ele disse querer apoio de Daniel Coelho e Priscila Krause, em um eventual segundo turno. Um dia depois do primeiro turno, PSDB e DEM anunciaram apoio a Geraldo, em um gesto claramente antipetista. Mas os números indicam que essa migração automática não aconteceu.

Nenhum dos dois postulantes derrotados subiu no palanque do PSB, em postura independente da do partido. Os apoios no segundo turno não transferiram 100% dos votos para nenhum dos dois lados, mas a maior parte foi mesmo para o socialista.

Depois de mais um mês de campanha para o segundo turno, continuou atual a avaliação feita pelo próprio candidato do PT sobre as as adversidades encontradas no período eleitoral, no domingo de eleições do primeiro turno.
“Cumprimos com a nossa tarefa e chegamos na perspectiva de irmos para o segundo turno mesmo diante de um quadro difícil, de poucos recursos e com apenas 49 candidatos a vereador para mais de 500 deles. Também enfrentamos duas máquinas, a da Prefeitura e a do Estado, e temos menos da metade do tempo de mídia do atual prefeito. Felizmente, podemos contar com o brilho das nossas duas gestões à frente da Prefeitura, que foi reavivado, e o apagão da administração atual, que não cuidou nem das pessoas nem da cidade. Ainda tivemos o apoio de uma militância incansável e aguerrida e de uma equipe de profissionais que trabalhou de forma apaixonada”, afirmou João Paulo, há um mês.
Na campanha deste ano, o prefeito reeleito do PSB enfrentou sete adversários no total, apostando no discurso de uma campanha “positiva”, com poucos ataques aos adversários. O fator de as eleições terem sido mais curtas, este ano, acabou diminuindo também a possibilidade de mudanças radicais.

Nos 45 dias do primeiro turno, a estratégia era evitar o embate e apresentar novas propostas, mesmo sem ter tirado do papel todas as de 2012. Já na segunda rodada, houve uma clara tentativa de colar ao adversário a pecha de candidato ultrapassado e expor a filiação partidária, uma vez que o PT passa forte desgaste no âmbito nacional em função da Operação Lava Jato. Geraldo precisou deixar de lado o perfil mais técnico para encampar o debate político.

Sem Lula nem dinheiro nacional

Com a crise política em que a legenda se envolveu, culminando no impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), o antipetismo foi uma barreira não superada por João Paulo.

Nesta seara, nada mais demolidor para o petista João Paulo do que o depoimento do vice-prefeito de Geraldo Julio, Luciano Siqueira, do PCdoB. O petista puxou o personagens para o debate, uma vez que o comunista também foi vice de João Paulo nos oito anos de governo. No auge da campanha, João Paulo chegou a afirmar que a posição de Luciano Siqueira era “humilhante” para permanecer na vice. O comunista disse que recebeu a declaração com “zero estresse” e na TV, afirmava que Geraldo Julio era o melhor para o futuro da cidade. O PT tentou responder usando depoimentos da vereadora Marília Arraes, ex-PSB e eleita este ano pela sigla petista, mas sem o mesmo peso.

Uma visita do ex-presidente Lula, apesar de esperada pela cúpula do PT de Pernambuco, não ocorreu no segundo turno, mesmo com a cidade do Recife sendo a única capital do País em que o PT disputava e a Executiva nacional da legenda tendo colocado a disputa como ‘prioritária’.

No primeiro turno, o ex-presidente esteve presente no Recife cerca de dez dias antes do primeiro turno, participando de um ato de rua, mas o aliado João Paulo acabou perdendo três pontos nas pesquisas após a passagem de Lula. O partido também contou com poucos recursos em caixa para manter a campanha presente nas ruas. O déficit nas contas chega a cerca de R$ 1 milhão, segundo informações de bastidores.

Em plena campanha do primeiro turno, o PT viu dois dos principais nomes dos governos petistas serem presos pela Operação Lava Jato: o ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci, que atuou no governo Lula, e Guido Mantega, que comandou a mesma pasta na gestão de Dilma. Mantega teve a prisão revogada no mesmo dia que Lula veio ao Recife.
João Paulo admitiu que esses fatores interferiram nas eleições municipais. “Eu acho que prejudicou a política como um todo. Prejudicou mais o PT porque o tratamento que foi dado às denúncias contra alguns companheiros do PT foi diferente aos diversos envolvimentos, inclusive aqui no Estado. Se fosse dado um tratamento equânime, os resultados seriam equânimes naturalmente. Mas como não foi, traz um prejuízo maior ao PT”, disse.
No Estado, o partido ainda sofre resquícios da disputa interna há quatro anos, quando uma briga levou a legenda a impedir o então prefeito João da Costa a não disputar a eleição. De lá para cá, porém, João Paulo já perdeu duas eleições. Além da derrota para Geraldo em 2012, como vice, há dois anos, quando tentou chegar ao Senado, foi derrotado pelo socialista Fernando Bezerra Coelho e foi alojado como presidente da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), cargo que deixou em maio, depois que o Senado abriu o processo de impeachment contra Dilma e o petista alegou que não poderia exercer a função em um governo “golpista”.

Mesmo com as dificuldades, o candidato João Paulo começou o dia da eleição do segundo turno com uma sessão coletiva de meditação transcendental no comitê da campanha, na área central da cidade, ao lado de outros integrantes da coligação, como o candidato a vice Sílvio Costa Filho (PRB), Humberto Costa, Armando Monteiro Neto e o presidente estadual do PT, Bruno Ribeiro. O ritual é apresentado pelo grupo como uma tradição. João Paulo adotou a prática a partir do ano 2000 e passou a segui-la no dia do pleito. Outro costume adotado geralmente pelo petista é de seguir a indicação dos astros sobre o melhor horário para votar; desta vez, 14h47.

A crise e a eleição

De um modo diferente de como a crise econômica nacional reforçou o apoio ao impeachment da ex-presidente Dilma, o momento econômico adverso acabou ajudando a blindar a gestão do prefeito do PSB no Recife. A exemplo do que ocorreu em todas as rodadas anteriores da pesquisa da Nassau, os eleitores do Recife concordaram com a tese de que a crise econômica nacional interferiu negativamente na administração do prefeito Geraldo Julio. Nesta situação, o prefeito encaixou o discurso de que não teve como entregar todas as promessas de campanha e ainda jogou a culpa nos aliados nacionais do adversário.

Já no mês passado, o professor Adriano Oliveira, coordenador geral da pesquisa da Nassau, já chamava atenção para o fato de que a crise acabaria ajudando Geraldo Julio, por mais que os adversários tentassem dizer o contrário, no rádio, na tv, nos jornais ou na estridente internet. “A crise tende a ajudar Geraldo no momento em que ele mostra suas obras. Como a crise está diretamente ligada ao eleitor, pode ajudar positivamente Geraldo”, afirmou, no mês passado. Em resumo, os recifenses continuaram acreditando que crise econômica nacional afetou gestão Geraldo Julio.

A questão era uma das mais relevantes nestas eleições uma vez que o prefeito Geraldo Julio já havia dado sinais, desde o final de 2015 e de forma mais clara ainda em agosto de 2016, de que usaria a crise para justificar não ter cumprido todas as promessas de campanha. Os adversários criticaram, antes e depois do início da campanha oficial, a narrativa apresentada pelo PSB, sem sucesso. Foram sete adversários tentando desconstruir a tese, sem sucesso.
Em agosto, Geraldo Julio já ressaltava as linhas que veio apresentar na campanha, de que houve uma crise econômica no meio do seu mandato, avaliado por ele como o pior desde 1930. “Nenhum de nós viveu numa crise tão dura na economia brasileira”, afirmou. Porém, defendeu a sua gestão ao dizer que tentou resolver o problema. “Ela atropelou os nossos planos, sim, mas atropelou o plano de todo mundo”, falou. Há dois meses, com Dilma afastada, o prefeito opinou que a economia tem ganhado confiança com o governo Michel Temer (PMDB), mas ela precisa se consolidar para que haja mais investimentos. “A confiança mudou completamente, mas o momento é de apreensão”, ponderou.
Já na campanha deste ano, o tucano Daniel Coelho, respondendo a uma pergunta do Blog de Jamildo, no programa de Samir Abou Hana, chegou a comparar a gestão do PSB no Recife com a gestão do DEM, em Salvador, citando ACM Neto, que também enfrentou crise e está com bons índices de aprovação na Bahia. A campanha do candidato do PT João Paulo também adotou a mesma estratégia, em vários momentos.

Em contra-ataque, ao apresentar os dados da própria gestão, o prefeito Geraldo Julio (PSB), usou a estratégia de comparar os quatro anos de mandato aos três do PT no Recife – os oito primeiros com João Paulo, derrotado pelo socialista nestas eleições, e os outros quatro com João da Costa, que agora tenta uma vaga na Câmara Municipal.

Em fala em seminário do Lide Pernambuco, Geraldo Julio exaltou obras como a implantação do Compaz no Alto Santa Terezinha, na Zona Norte, que recebeu o nome do padrinho político dele, o ex-governador Eduardo Campos (PSB). “É a maior fábrica de cidadania do País”, afirmou, enaltecendo o único dos cinco equipamentos como esse prometidos nas eleições vencidas pelo socialista em 2012, inaugurado este ano. As promessas de quatro anos atrás se mantiveram para o próximo mandato, também afetado pela crise, de acordo com as previsões.

Da Redação | PEmais
Com informações do blog de Jamildo

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