26 de mai de 2015

Magno Martins detalha página histórica da política de Taquaritinga do Norte


Em agosto de 1983, Tancredo Neves, então governador de Minas Gerais pelo PMDB, desceu em Campina Grande e de carro seguiu até Taquaritinga do Norte, no Agreste, para um compromisso de ordem sentimental: prestigiar a inauguração de um hospital com o nome do empresário pernambucano Severino Pereira.

Industrial bem-sucedido da área têxtil e de cimento em São Paulo, com expansão dos seus negócios em várias partes do País, inclusive Minas, Severino teve o privilégio de contar em seus quadros nas suas empresas com os serviços do advogado Tancredo Neves. Foi daí que surgiu uma amizade sólida.

O empresário dirigia a Companhia Industrial Cataguases, a Fiação Santa Terezinha em Juiz de Fora e a Companhia Nacional de Estamparia - CIANÊ, em Paraguaçu, Sul de Minas Gerais. Severino Pereira da Silva chegou a ter mais de 10 mil funcionários no auge da tecelagem quando proprietário da extinta Companhia Nacional de Estamparia (Cianê), em Sorocaba, matriz do seu conglomerado.

Ali, na Praça Pio XII, há um monumento que homenageia o empresário pernambucano, com a avenida principal levando o seu nome. Com profunda ligação à sua terra natal, Severino Pereira chegou a abrir um hotel fazenda em Taquaritinga do Norte. Tancredo o admirava pela sua história e pelo seu trânsito nacional. Até os grandes nomes da política brasileira, como os presidentes Ernesto Geisel e João Batista de Figueiredo também tinham uma boa relação com ele.

Já visto como um grande nome para disputar a Presidência da República, Tancredo foi homenageado em Taquaritinga com um almoço na casa de Severino Pereira, que contou com as presenças do governador Roberto Magalhães e do senador Marco Maciel, além do prefeito anfitrião Jarbas Pinto e o deputado federal Luiz Gonzaga Vasconcelos. Magalhães e Maciel, após a frustração das diretas em 1984, se negaram a apoiar Paulo Maluf, do seu partido, o PDS, no Colégio Eleitoral, criando uma dissidência que veio a se chamar Frente Liberal em apoio a Tancredo.

Discreto, Tancredo não falou com a Imprensa nem quando chegou nem durante a solenidade de inauguração do hospital, o que nos obrigou a fazer um plantão em frente à casa de Severino Pereira. Fui a Taquaritinga pelo Correio Braziliense como repórter substituto do companheiro Nivaldo Araújo, que estava em férias. E, lembro muito bem, da longa espera para o final do almoço ao lado do companheiro Lula Farias, já falecido, que trabalhava na sucursal do jornal O Globo.

Após o almoço, Tancredo nos concedeu uma longa entrevista sobre a necessidade de o País voltar a ter o direito de eleger por via direta o seu presidente da República. A abertura já havia sido iniciada com a eleição direta de governadores um ano antes, em 1982. "Chegou a hora de libertarmos esta pátria desta confusão que se instalou no país há 20 anos”, disse ele, defendendo em seguida a aprovação da emenda Dante Oliveira no Congresso.

Chegou a dizer que os parlamentares que votassem contra a emenda deveriam se retirar do Congresso, já que não representavam mais a vontade do povo. “Restaurar a democracia é restaurar a República, é edificar a Nova República”, completou. Sobre Maluf, que vinha a se transformar no seu adversário no Colégio Eleitoral, afirmou:” Maluf simboliza tudo quanto a Revolução realizou de negativo nesses 20 anos”.

Soube depois que, neste mesmo almoço, Tancredo passou boa parte do tempo elogiando outro pernambucano, o empresário Antônio Ermírio de Moraes, com quem sonhava contar como candidato a vice em sua chapa. Antônio Ermírio, nascido em família tradicional de Pernambuco, era líder empresarial em São Paulo.

O pai dele, José Ermírio de Morais, tinha sido senador pelo PTB de Pernambuco e foi amigo de Getúlio Vargas. O segredo vazou depois e a possibilidade de Antônio Ermírio ser vice foi descartada em São Paulo, sendo Sarney o escolhido.

As declarações de Tancredo nos renderam uma boa manchete, valendo a pena a longa espera em frente à residência do empresário. Mais à frente, Tancredo se incorporou à campanha das diretas percorrendo o País em grandes manifestações e comícios.

Em 1984, aceitou a proposta de se candidatar à Presidência da República, com o apoio de Ulysses Guimarães. Em 15 de janeiro de 1985 foi eleito presidente do Brasil pelo voto indireto de um colégio eleitoral, mas adoeceu gravemente em 14 de março do mesmo ano, véspera da posse. Morreu oficialmente de diverticulite.

Escrito por Magno Martins, da coluna Histórias de Repórter
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Cabe a nós uma reflexão: Depois de ler esse brilhante e importante texto do jornalista Magno Martins, vem a nossa cabeça a seguinte expressão; "Meu Deus, quem já foi Taquaritinga do Norte!?" Os representantes de hoje não aprenderam com a história, nos deparamos com um quadro político cada vez mais pobre, com representantes sem expressão e sem influências. Eles não transmitem a nós esperanças, muito menos podemos esperar que tragam o engradecimento de nossa terra. A Dália da Serra viveu momentos que fazem parte da história do país e hoje somos um ponto de esquecimento em nossa própria região. Taquaritinga não merece! (Paulo Pereira)

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